A história ensina a idolatrar heróis no vácuo das virtudes morais, ignorando que o verdadeiro motor da República sempre foi o capital aplicado à ponta de um fuzil. Quando olhamos para a Guerra do Contestado, a narrativa escolar prefere pintar um quadro exótico de monges fanáticos e sertanejos messiânicos. Uma abstração conveniente para mascarar a verdade de uma guerra comercial suja e sem honra.
O Contestado não foi um delírio religioso. Foi a primeira vez que o Estado brasileiro, operando sob a lógica de uma corporação armada, engajou-se no extermínio em massa do seu próprio povo unicamente para garantir os dividendos de uma companhia norte-americana: a Brazil Railway Company e a sua devoradora de florestas, a Southern Brazil Lumber & Colonization.
O arquiteto da tragédia não usava batina. Usava terno de corte inglês. Percival Farquhar, um especulador implacável financiado por banqueiros europeus, comprou do governo republicano a concessão para cruzar o Sul do Brasil com trilhos de aço. Mas o verdadeiro negócio não era o trem; era o espólio. O contrato garantia-lhe a posse de 15 quilômetros de terras devolutas de cada lado da ferrovia. Um feudo continental.
Camponeses, caboclos e posseiros que habitavam a região da fronteira fluida entre Paraná e Santa Catarina havia gerações descobriram, do dia para a noite, que eram invasores em sua própria terra. Fardas da polícia estadual e capangas a soldo expulsavam famílias sob a mira de carabinas, abrindo espaço para a exportação frenética de araucárias pela Lumber.
A expropriação sistemática formou uma legião de despossuídos, doentes e famintos. E como sempre ocorre no desespero absoluto, o misticismo preencheu o buraco cavado pela fome. O Monge João Maria e seu sucessor, José Maria, não precisaram incitar a guerra. Eles apenas ofereceram a única coisa que a República lhes negava: pertencimento.
Quando os sertanejos se organizaram em "Cidades Santas" como Taquaruçu, desafiando a ordem imposta pelos coronéis e diretores corporativos, a resposta do Rio de Janeiro foi cirúrgica. A máquina de guerra precisava ser testada.
O governo do marechal Hermes da Fonseca mobilizou dois terços de todo o Exército Brasileiro. A campanha não visava prender dissidentes; o objetivo era a terra arrasada. Em uma coreografia do horror, a jovem República estreou seus aviões de combate e canhões Krupp disparando contra barracas de pau a pique e mulheres grávidas. Oficiais cursados nas doutrinas europeias de artilharia ordenaram massacres com metralhadoras Maxim contra camponeses armados com facões e espingardas de caça. Um abate contábil. A civilização contra o atraso, diziam os relatórios oficiais, justificando a limpeza étnica e social com selos federais.
No final, quase 10.000 mortos banharam o chão das araucárias. As cidades santas viraram cinzas. Os trilhos e os trens puderam circular livremente, exportando a madeira enquanto os balanços financeiros em Wall Street registravam lucros excepcionais. A Primeira República, despida de suas fábulas de ordem e progresso, revelava o seu rosto verdadeiro: o de uma milícia de luxo garantindo o monopólio daqueles que podem comprar a sua violência.
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Entre os veteranos engajados nas frentes de Santa Catarina, circulava o relato cínico de um capitão que sobreviveu à carnificina da serra. Segundo cartas interceptadas pela inteligência militar da época, o oficial confessava o horror de seu próprio ofício em termos estritamente comerciais.
"Não lutamos por bandeira ou pátria nestes pântanos," relatava a carta manchada de umidade. "Lutamos pelo som das serras da Lumber cortando a madeira velha. Cada vez que a artilharia varre um agrupamento de caboclos famélicos no vale, eu quase consigo escutar as taças de champanhe batendo em Nova York. Dizem que somos heróis da República. Eu me sinto mais como o capataz de um madeireiro gringo." O oficial não nomeado teria pedido baixa meses depois, destruído pelo alcoolismo, incapaz de esquecer o silêncio que sucedia o crepitar das metralhadoras.
Fontes e Bibliografia Consultada
- MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado. Campinas: Unicamp, 2004.
- FRAGA, Nilson Cesar. Contestado em Guerra, 100 anos do massacre de uma nação. Florianópolis: Insular, 2012.
- THOMÉ, Nilson. Trem de Ferro: História da Ferrovia no Contestado. Florianópolis: Lunardelli, 1980.

Tropas federais mobilizadas para esmagar os sertanejos. Imagem em Domínio Público.