Frentes Ocultas

Estratégia, geopolítica e os heróis esquecidos da história.

2024 05 24 O Cerco A Capital A Revolta Da Armada E A Marinha Mercenaria De Floriano

| Data Histórica: 1893-09-06
Parte da saga: A Primeira República (1889 - 1930) | Tempo de leitura: ~5 min
Tags:historia, geopolitica, diplomacia, militares, primeira-republica

Esboço histórico do bombardeio durante a Revolta da Armada na Baía de Guanabara em 1893. Fortalezas disparando contra navios de guerra, nuvens de pólvora cobrindo o céu do Rio de Janeiro.

Aspecto da Baía do Rio de Janeiro durante o bombardeio entre as fortalezas e os navios revoltosos (1893). Fotógrafo Juan Gutierrez. Domínio Público.

Na recém-nascida República brasileira, as Forças Armadas encontravam-se profundamente fraturadas. O Exército controlava a política em terra, consolidando a República, enquanto a Marinha — apelidada de "a Armada", que ainda nutria forte simpatia pela Monarquia destituída e ressentia sua perda de prestígio e autonomia — controlava o mar. Em 6 de setembro de 1893, essa panela de pressão explodiu no coração do país.

O Almirante Custódio de Melo, profundamente insatisfeito com a concentração absolutista de poder nas mãos do presidente da República, o Marechal do Exército Floriano Peixoto, ordenou que a esquadra brasileira ancorada na Baía de Guanabara apontasse os seus formidáveis canhões para o centro nervoso do Rio de Janeiro. A exigência era simples e brutal: ou Floriano renunciava, ou a capital federal seria obliterada.

A Tática Fria do "Marechal de Ferro"

Qualquer governante teria entrado em pânico ao ver os maiores encouraçados e cruzadores do país (incluindo o temível Aquidabã) prontos para transformar o palácio presidencial em escombros e cinzas. Mas Floriano Peixoto não era um político comum; ele era um estrategista de sangue-frio, o que lhe renderia a alcunha histórica de "Marechal de Ferro".

A fofoca diplomática da época, sussurrada nos salões europeus e nas chancelarias sul-americanas, relata que, ao ser avisado por embaixadores aterrorizados de que a cidade seria inevitavelmente destruída pelos bombardeios navais se não houvesse rendição, Floriano respondeu com glacial indiferença: "É para isso que eu vou construir uma cidade nova".

Em vez de ceder às demandas dos amotinados, ele dobrou a aposta. Floriano militarizou o litoral, instalou canhões de grosso calibre nos morros do Rio de Janeiro (como o Morro do Castelo e as fortalezas de Santa Cruz e São João) e ordenou que as tropas do Exército atirassem impiedosamente contra os navios. O Rio de Janeiro virou uma verdadeira zona de guerra urbana. Por meses, os cidadãos conviveram com o fogo cruzado diário entre o mar e a terra.

A Informação Oculta: A "Esquadra de Papelão" e os Mercenários de Nova York

Floriano Peixoto tinha um problema logístico massivo de difícil resolução: como afundar a Marinha rebelde se praticamente todos os grandes e modernos navios de guerra do Brasil estavam sob o comando dos amotinados? A solução do presidente foi orquestrar uma das operações de aquisição de armamento mais obscuras e heterodoxas da nossa história militar.

Enquanto o Rio era fustigado pelas granadas, o governo republicano enviou o astuto diplomata Salvador de Mendonça aos Estados Unidos. Sua missão, financiada por malas de dinheiro e créditos de emergência, era clara: comprar rapidamente qualquer navio civil ou belonave obsoleta disponível no porto de Nova York e transformá-los em máquinas de guerra.

Com o auxílio estratégico do influente empresário americano Charles Flint — um magnata com vasta experiência em negociações obscuras de armamentos —, a delegação brasileira comprou navios mercantes, velhos barcos de passageiros e até navios-torpedeiros adaptados, como o Gustavo Sampaio.

Como o Brasil não possuía marinheiros leais e qualificados em número suficiente para tripular essa frota improvisada e emergencial, o governo contratou mercenários americanos, escoceses e ingleses. Muitos eram oficiais endurecidos, veteranos da Guerra de Secessão dos EUA e aventureiros ("a escória do filibusterismo", como diria Joaquim Nabuco) dispostos a derramar sangue sul-americano por um bom pagamento em ouro.

Essa frota de aluguel ganhou rapidamente apelidos irônicos. Oficialmente chamada de "Esquadra Legal", os críticos e o povo a batizaram de "Esquadra Flint" e, mais notoriamente, de "Esquadra de Papelão", devido à improvisação das blindagens (muitas vezes reforçadas com fardos de algodão, madeira e até mesmo sacos de areia).

O Xeque-Mate no Mar e a Humilhação Portuguesa

Apesar de ser tecnologicamente inferior e construída sobre o improviso de aventureiros, a aproximação da "Esquadra de Papelão" ao litoral brasileiro surtiu um efeito psicológico devastador. Somada à falta crítica de munição, carvão e água potável nos navios rebeldes — que estavam sitiados na própria Baía de Guanabara sob o fogo cerrado dos canhões terrestres —, a moral da Armada começou a ruir.

Percebendo que Floriano Peixoto estava disposto a ir até às últimas consequências, preferindo ver o Rio de Janeiro em chamas a renunciar, e que agora possuía uma frota de mercenários americanos contratados para afundá-los, a revolta desmoronou em março de 1894.

O Almirante Custódio de Melo, já enfraquecido, havia fugido semanas antes para o sul do país para apoiar a Revolução Federalista. Num último ato de desespero e humilhação diplomática no Rio de Janeiro, o Almirante Saldanha da Gama (que assumira o comando dos rebeldes na baía) e muitos oficiais amotinados pediram asilo político a duas corvetas da Marinha de Portugal (Mindello e Affonso de Albuquerque) que estavam fundeadas na cidade.

Foi essa fuga precipitada, acobertada pelas embarcações lusitanas, que enfureceu Floriano Peixoto e levou o Brasil a romper relações diplomáticas com Lisboa. Essa profunda fratura diplomática com Portugal abriria caminho, meses depois, para um cenário de perigosa instabilidade internacional nas ilhas oceânicas atlânticas, onde um certo arquiteto diplomático precisaria intervir contra as pretensões da maior superpotência da época para garantir a soberania naval do país.


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