
Marechal Floriano Peixoto: a Realpolitik do terror de Estado. Imagem em Domínio Público.
Após a renúncia melancólica de Deodoro da Fonseca, engolido pelo desastre financeiro do Encilhamento e pela própria incompetência política, a República recém-nascida pendia à beira do colapso. O vácuo de poder no Rio de Janeiro atraiu abutres, especuladores e oficiais rebeldes. No entanto, o trono vazio não foi ocupado por um conciliador, mas pelo Marechal Floriano Peixoto.
Frio, lacônico e impiedoso, o "Marechal de Ferro" compreendeu de imediato a essência da Realpolitik: um regime carente de legitimidade popular não sobrevive através de acordos, mas pelo monopólio do terror e pela aniquilação física de seus inimigos.
O novo chefe de Estado assumiu o controle ignorando a Constituição recém-promulgada, que exigia novas eleições em caso de renúncia do presidente antes da metade do mandato. Para a máquina burocrática e para as baionetas que o sustentavam, a lei era um entrave burguês. A República não seria salva por juízes ou parlamentares, mas pelas balas. O radicalismo jacobino encontrou em Floriano seu grande operador logístico. O governo aparelhou os batalhões do Exército e insuflou a militância cívica violenta nas ruas do Rio de Janeiro.
O teste de fogo veio do mar e do Sul. A Marinha, ressentida com a perda de privilégios e o protagonismo absoluto do Exército, virou os canhões de seus encouraçados contra a própria capital federal na Segunda Revolta da Armada de 1893. Simultaneamente, no Rio Grande do Sul, a Revolução Federalista explodiu em uma sangrenta guerra civil entre chimangos e maragatos, ameaçando dividir o país.
A resposta do Palácio do Itamaraty foi a força bruta descarnada. Floriano encomendou navios de guerra improvisados nos Estados Unidos, a famigerada "Esquadra de Papelão", recheada de mercenários estrangeiros pagos a peso de ouro, para furar o bloqueio naval. Na Baía de Guanabara, não houve negociação; a frota rebelde foi caçada e destruída. No Sul, o Estado delegou aos seus generais a licença para matar. Prisioneiros federalistas não recebiam julgamento ou misericórdia. O método da "degola" transformou os campos gaúchos e catarinenses em abatedouros a céu aberto, onde tropas legalistas exterminavam opositores degolando-os como gado para economizar munição.
Floriano Peixoto salvou a República. Mas a salvou com fuzilamentos na Fortaleza de Santa Cruz e execuções sumárias em Santa Catarina (cuja capital, Desterro, foi cinicamente renomeada para Florianópolis em "homenagem" ao homem que massacrou sua população). O Marechal consolidou o Estado brasileiro não através de um pacto social democrático, mas provando, de forma letal, que a máquina burocrática esmagaria qualquer dissidência que ameaçasse o monopólio da violência estabelecido no golpe de 1889.
Relatos Apócrifos: O Silêncio da Morte
Um oficial capturado durante as revoltas, cujos registros foram arquivados e silenciados pelo Exército, relata em um bilhete póstumo:
"Nos corredores de Santa Cruz, o fuzilamento não tem sentença. O Marechal não assina os papéis de execução, ele apenas não assina o perdão. O silêncio do presidente é a bala que fura nosso peito. Ele governa através do que não diz, deixando os coronéis fazerem o serviço sujo nas trincheiras e nos campos de Desterro. A República nasceu órfã de lei e afogada no sangue dos seus próprios filhos."
Fontes e Bibliografia Consultada
- CASTRO, Celso. A Invenção do Exército Brasileiro. Jorge Zahar Editor, 2002.
- CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. Companhia das Letras, 1990.
- LIMA, Manuel de Oliveira. O Império Brasileiro. Edições Melhoramentos, 1927.
- MELLO, Evaldo Cabral de. A Outra Independência. Editora 34, 2004.
- Arquivos e Documentos do Ministério da Guerra sobre a repressão da Revolução Federalista.