As falsificações chegaram aos quartéis cheirando a tinta barata, mas o dano era irreparável. Cartas atribuídas a Arthur Bernardes circulavam pelo Clube Militar, reduzindo o exército a um bando de "venais". O cinismo da República Velha, acostumada a resolver eleições nas urnas fraudadas e gabinetes refrigerados, havia, desta vez, cuspido diretamente no rosto da infantaria. A resposta não viria em ofícios. Viria em pólvora.
Era 5 de julho de 1922. O Rio de Janeiro, a vitrine tropical da burocracia, acordou sob o troar da artilharia. O Forte de Copacabana, um monstro de concreto armado que deveria proteger a capital das armadas estrangeiras, girou seus canhões Krupp para dentro. O alvo era o próprio Ministério da Guerra. Os "gabineteiros" da presidência reagiram com a força de um estado que não admite desaforos: cercaram a fortificação com milhares de soldados leais e iniciaram um bombardeio incessante.
O forte foi esmagado sob uma chuva de aço e obuses navais. A fumaça densa sufocava os revoltosos, e as paredes tremiam sob o impacto dos cruzadores São Paulo e Minas Geraes.

Fotografia histórica dos revoltosos marchando na orla. Domínio Público.
Quando a rendição parecia a única saída lógica, a lógica militar foi abandonada em favor do sacrifício fanático. O tenente Antônio de Siqueira Campos não pediria clemência aos que considerava usurpadores da República. Dos 301 homens iniciais, restavam 29. Siqueira Campos e o tenente Eduardo Gomes retalharam a bandeira nacional. Cada homem amarrou um pedaço de tecido verde e amarelo no peito. Baionetas caladas, fuzis Mauser nas mãos.
O portão de bronze do Forte se abriu. Dezoito homens — dezessete militares e um civil chamado Júlio de Oliveira — marcharam pelas areias de Copacabana em direção às tropas governamentais. O mar quebrava indiferente. Três mil soldados do governo aguardavam. Fogo de enfiada. A areia branca tingiu-se rapidamente do vermelho-escuro das artérias rompidas. O som do mar foi abafado pelos estampidos secos dos fuzis e o grito gutural dos homens tombando, de peito aberto, sob a tempestade de chumbo. O civil Júlio foi um dos primeiros a cair.
Foi um combate de minutos, mas uma carnificina projetada para a eternidade. Siqueira Campos caiu metralhado, perdendo pedaços do próprio corpo, mas recusando a morte instantânea. Eduardo Gomes tombou com uma bala que lhe estilhaçou a coxa. Apenas os dois sobreviveram ao massacre, recolhidos do açougue praiano como troféus ensanguentados pelo exército legalista. O governo celebrou a manutenção da ordem. Mas a ordem estava morta.
O banho de sangue nas areias de Copacabana não era um fim, mas um batismo. A fúria geracional dos tenentes, forjada nesse sacrifício suicida, iria inflamar os quartéis pelo interior do Brasil. Os generais no poder não compreendiam que aqueles pedaços rasgados de bandeira logo se espalhariam pela nação como uma praga indomável de insurreição. O cheiro de pólvora deixaria o litoral.
O interior do país logo sentiria o chão tremer sob as botas de uma coluna militar que marcharia em nome dos mortos na praia.