A recém-proclamada República Brasileira era paranoica. Sem apoio popular, os militares e os cafeicultores que tomaram o poder no Rio de Janeiro viam fantasmas monarquistas em cada esquina. Foi nesse clima de terror de Estado que ocorreu o maior massacre de civis da nossa história militar: a Guerra de Canudos.
A história oficial narra uma vitória gloriosa do Exército contra fanáticos religiosos. As frentes ocultas revelam uma humilhação tática colossal, mascarada pela primeira grande operação de "Fake News" da imprensa nacional.

Fotografia histórica das ruínas de Canudos capturada pela expedição militar de Flávio de Barros em 1897. Domínio Público.
A Ameaça de Barro e Enxada
No interior árido da Bahia, um beato chamado Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Antônio Conselheiro, reuniu milhares de miseráveis, ex-escravizados e sertanejos famintos em uma comunidade autossustentável chamada Belo Monte. Eles não pagavam impostos à República e viviam à margem do coronelismo local.
O governo da Bahia, perdendo mão de obra barata e o controle político absoluto sobre a região, pediu socorro ao Rio de Janeiro. Mas como convencer o país a mandar o Exército atirar em sertanejos famintos armados com foices e espingardas de caça velhas?
A Máquina de Fake News do Rio de Janeiro
A resposta foi uma campanha brutal e orquestrada de desinformação. Jornais da capital, alinhados à elite militar e republicana, começaram a publicar manchetes alarmistas. A imprensa plantou a narrativa de que Canudos era uma "cidadela fortificada", armada com canhões europeus modernos e secretamente financiada pelo Império Britânico para restaurar a Monarquia no Brasil.
A mentira funcionou perfeitamente. O medo e o furor nacionalista tomaram conta das cidades. Antônio Conselheiro, um homem que pregava em uma igreja de taipa, foi transformado pela propaganda militar no homem mais perigoso da América do Sul.
A Humilhação Tática no Terreno
Acreditando na própria propaganda e subestimando flagrantemente o inimigo, o Exército enviou três expedições militares consecutivas para a Bahia. O resultado foi um vexame global.
Os sertanejos, liderados por comandantes locais brilhantes como João Abade e Pajeú, conheciam a caatinga como a palma de suas mãos. A vegetação seca, os espinheiros e a topografia labiríntica rasgavam uniformes, inutilizavam marchas em coluna e cegavam os inexperientes soldados do litoral. Usando táticas de guerrilha impecáveis — emboscadas rápidas, atiradores de elite camuflados e fogo cruzado em desfiladeiros — os camponeses aniquilararam as forças oficiais.
O choque máximo ocorreu na terceira expedição. O lendário e sanguinário Coronel Moreira César (o famigerado "Corta-Cabeças", herói da República que havia esmagado a Revolta da Armada e a Revolução Federalista) subestimou a resistência, ignorou os relatórios de inteligência e ordenou um ataque frontal e descoordenado. Ele foi morto em combate nas vielas estreitas de Canudos. Suas tropas, sem liderança, fugiram em pânico total, abandonando canhões, metralhadoras e milhares de cartuchos de munição intactos, que imediatamente fortaleceram o arsenal dos rebeldes.
A Operação de Extermínio (A Quarta Expedição)
A derrota de heróis consagrados do Exército para "caipiras" causou histeria absoluta no Rio de Janeiro. A República estava militar e politicamente desmoralizada perante o mundo. O Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt, interveio pessoalmente. A quarta expedição não foi enviada para vencer; foi enviada para obliterar.
Mais de 8.000 soldados de todos os estados do Brasil, equipados com as metralhadoras Maxim mais modernas da época e pesados canhões de cerco Krupp (incluindo o famoso canhão de calibre 32 apelidado tragicamente de "A Matadeira"), marcharam contra a cidade de barro.
O cerco durou meses de fome, sede (o exército havia cortado o acesso ao rio) e bombardeio ininterrupto. Ainda assim, a tática de resistência urbana e a intrincada rede de trincheiras dos conselheiristas foram ferozes. O terreno era disputado palmo a palmo, casa a casa.
Como imortalizou Euclides da Cunha (o repórter que foi cobrir o que achava ser uma vitória gloriosa da civilização e descobriu um genocídio e um crime de guerra indescritível): "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo."
O exército não fez prisioneiros entre os combatentes do sexo masculino. A "Degola" ou "Gravata Vermelha" tornou-se uma prática padrão e sádica para economizar munição e enviar um recado. A cidade foi bombardeada até virar pó e cinzas. As mulheres e crianças sobreviventes, esfomeadas e doentes, foram distribuídas como "espólios de guerra" nos mercados de escravos informais e para as famílias abastadas do litoral.
A República construiu seu pilar de sustentação banhada no sangue de milhares de brasileiros invisíveis, transformando a pior derrota militar de sua história em uma mentira monumental de triunfo civilizatório.
(Nota do Arquivo: Enquanto o sertão baiano sangrava sob as botas do próprio exército na guerra de Canudos, outras frentes diplomáticas e militares ferviam no limiar do século XX. O delírio monarquista usado como desculpa para massacrar Canudos não era o único fantasma que assombrava a República. Pouco antes, a frota britânica tentou tomar pedaços do território pelo mar e os franceses tentaram invadir o Amapá pela selva. Leia o Dossiê sobre a expulsão britânica da Ilha da Trindade e descubra como o governo republicano lidava com ameaças reais).
Fontes Consultadas:
- CUNHA, Euclides da. Os Sertões: Campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902.
- GALVÃO, Walnice Nogueira. No Calor da Hora: A guerra de Canudos nos jornais. São Paulo: Ática, 1974.
- VILLA, Marco Antonio. Canudos: O povo da terra. São Paulo: Ática, 1995.