A neblina densa que cobria o Rio Paraguai na madrugada de 19 de fevereiro de 1868 não era apenas um fenômeno meteorológico; era o manto sob o qual o destino da América do Sul seria reescrito. Diante da esquadra brasileira erguia-se a Fortaleza de Humaitá, um complexo defensivo projetado para ser o túmulo de qualquer força invasora.
Com dezenas de canhões pesados, o local era considerado a "Sebastopol da América do Sul". Forçar a passagem por suas águas, entrecruzadas por correntes de ferro que bloqueavam o rio, era tido como suicídio.

Canoas paraguaias tentando abordagem ao monitor Alagoas. Litografia de época em domínio público.
O Impasse Político e o Xadrez de Mitre e Caxias
Enquanto o exército aliado sangrava nas trincheiras e atoleiros nos arredores da fortaleza, o impasse político fervia. Cartas Interceptadas revelam que o presidente argentino, Bartolomé Mitre, duvidava abertamente da capacidade da Marinha Imperial. Ele acreditava que a guerra seria vencida por atrito terrestre, uma tática que apenas aumentava a contagem de corpos aliados.
Foi sob pressão crescente que o Almirante Joaquim José Inácio (futuro Visconde de Inhaúma) passou o comando operacional ao Chefe de Divisão Delfim Carlos de Carvalho (futuro Barão de Passagem). Carvalho recebeu a ordem de Luís Alves de Lima e Silva, o Marques de Caxias, que havia percebido que apenas um golpe audacioso no "coração fluvial" de Solano López destravaria a guerra. Caxias não tinha paciência para os atrasos políticos: Humaitá precisava cair.
A Tática dos Gêmeos Blindados
Delfim Carlos de Carvalho desenvolveu um plano que beirava a loucura logística, mas brilhava em tática naval. Ele decidiu que seus navios não enfrentariam Humaitá sozinhos. Em vez disso, ele emparelhou seis encouraçados em duplas.
Os navios maiores e mais blindados (o Barroso, o Bahia e o Tamandaré) seriam amarrados, a bombordo, a três monitores menores (o Rio Grande, o Alagoas e o Pará). A ideia era que as embarcações maiores servissem como escudos contra as baterias do forte, enquanto as menores garantiam poder de fogo auxiliar e redundância de propulsão. Se um navio tivesse os motores destruídos, o navio "gêmeo" o rebocaria para fora da zona de morte.
Além disso, cabos e sacos de areia reforçaram a proteção das máquinas e do leme, enquanto as correntes das âncoras foram enroladas nos cascos para absorver os impactos dos projéteis paraguaios. Uma manobra brilhante de adaptação mecânica em combate.
A Dança na Escuridão
Por volta das 3h da manhã, sob o favor de uma noite sem lua, a divisão avançou. O som das máquinas a vapor e o bater das águas logo alertaram os vigias paraguaios. A escuridão foi rompida por explosões ensurdecedoras. Humaitá iluminou-se com o fogo de dezenas de canhões disparando à queima-roupa.
Os navios brasileiros foram impiedosamente castigados. O encouraçado Alagoas, inicialmente solto do seu par, o Bahia, devido à quebra dos cabos de reboque, enfrentou a tempestade de fogo quase sozinho. Contra todas as expectativas e ordens de recuo de alguns oficiais, seu comandante manobrou a pequena embarcação através do dilúvio de metal, alcançando o restante da frota do outro lado da bateria.
Em menos de uma hora, sob um bombardeio que rachava as couraças e arrancava pedaços da superestrutura, as duplas de navios cortaram ou romperam as correntes que bloqueavam o rio. Eles haviam cruzado a linha da morte.
A passagem não apenas isolou a guarnição de Humaitá (que cairia meses depois devido à fome e ao cerco), mas destruiu o mito da inexpugnabilidade paraguaia. Solano López teve que recuar rapidamente para o norte, mudando o foco da guerra.
As táticas navais aplicadas naquela noite são estudadas até hoje pela sua ousadia em adaptar o equipamento à situação extrema e pela coordenação sob fogo intenso. O Brasil não apenas provou o valor dos seus encouraçados fluviais, como silenciou as críticas políticas internacionais de forma definitiva.
O sucesso da Passagem de Humaitá foi a resposta brutal que o Império precisava após as carnificinas inconclusivas de Tuiuti e o terror naval de Riachuelo.
No entanto, a queda de Humaitá não marcou o fim do derramamento de sangue. Com a fortaleza tomada, as forças aliadas agora marchavam diretamente para o coração enlouquecido do Paraguai, onde Solano López preparava uma guerra de guerrilha e terra arrasada que empurraria as táticas militares sul-americanas para as bordas de um abismo moral sem precedentes.
Fontes Recomendadas
- DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. Companhia das Letras, 2002.
- MAIA, Prado. A Marinha de Guerra do Brasil na Colônia e no Império. Cátedra, 1965.